Catálogo da Mostra Internacional de Arte Postal "História: Cultura e Sentimento"
A arte postal se movimenta numa rede de cartas, onde há trocas de fotografias, selos, carimbos, objetos, colagens postais e envelopes. Cartas elaboradas com preocupações estéticas. A prática da arte postal remonta aos artistas do modernismo e seus diferentes movimentos, o grupo Fluxos (1960) é tido como grupo fundador da arte postal, mas são relevantes as cartas trocadas por artistas como Pablo Picasso (1881-1973), Henri Matisse (1869-1954), Marcel Duchamp (1887-1968), Kurt Schwitters (1887-1948), Max Ernst (1891– 976) e Francis Picabia (1879-1953); cada qual participando das propostas dos seus próprios grupos, formando suas próprias circularidades, redes de interlocutores e intercessores.
Durante os anos sessenta a arte postal foi uma manifestação apenas entre artistas que se conheciam. Durante os anos 70 houve uma abertura a quem estivesse interessado em fazer arte, período de muitas publicações especializadas que se espalharam pelo mundo e exibições. A partir de 1980 as instituições públicas como os museus e as universidades começaram a valorizar a arte – postal e assim ela começou a fazer parte de bienais e museus reconhecidos e nas universidades os projetos de arte-postal ganharam força e incentivos. Ressaltando o caráter público das instituições que possibilitavam a garantia da não comercialização da arte, condição primordial aos arte-postalistas. Nos anos 90 a arte postal começou seus diálogos com as novas mídias e foi na internet que os artistas encontraram um meio privilegiado para novas experimentações abrindo novas poéticas, novos canais de participação, mobilização e divulgação da arte postal.
O fio dessa rede, que apresentamos aqui, foi puxado por Carolina Ruoso, artepostalista que iniciou sua trajetória, por estar interessada nesse fazer artístico, e foi incentivada a participar de uma mostra convocada por uma instituição museal. Desde então foi construindo um acervo que possibilitou confeccionar e promover esta convocatória. Foram enviados em setembro deste ano de 2007 aproximadamente 300 convites para artistas de diferentes lugares do mundo. A recepção dos arte-postalistas foi surpreendente, mais de 90 artistas enviaram suas cartas. Desde artistas “veteranos” considerados fundadores da arte postal, como Guy Bleus, Ruggero Maggi, Clemente Padim, Daniel Santiago e Paulo Bruscky a grupos iniciantes que encontraram o endereço ao acaso e a partir desse momento passaram a integrar esta nossa rede.
É importante olharmos uma mostra de arte postal como uma coleção, um conjunto que produz um mapeamento de uma diversidade de operações plásticas, visões de mundo e trocas culturais. Podemos com sagacidade encontrar entrecruzamentos do antigo e moderno nos traços e nos temas que nos foram remetidos, produzindo reflexões a respeito da idéia de simultaneidade no savoir faire do mundo das artes visuais, suas possibilidades e limites; de uma não linearidade no campo da produção artística, as novas práticas não matam as velhas; das práticas pedagógicas de formação de um gosto para a arte e suas ambivalências e de um desejo de participar em cada um que envia seu trabalho, que não será devolvido, mas será seguramente exposto.
O trabalho de curadoria realizado não censurou, não selecionou, não fez cortes na produção desta mostra, todos os trabalhos recebidos foram expostos. Esse é um conceito fundamental dentro da proposta político cultural desse movimento social internacional que é arte-postal, foi respeitado porque a riqueza está sim na diversidade, mas principalmente, está na vivencia de uma autonomia da arte, que gera comprometimento e participação, um desejo de compartilhar e de fazer parte; pois as motivações não estãomediadas pelo mercado, nem pela legitimação do campo cultural. As legendas construídas não pretendem explicar, são reflexões elaboradas que buscaram tecer aproximações, intercessões e contraposições entre as variadas poéticas reveladas aqui, os artistas e seus trabalhos, os trabalhos e a arte postal e os trabalhos e os temas como o corpo, a crítica social e a memória.